Estúdios de cinema mergulham em novas perspectivas de suas principais animações.

Por Davi Landim

As versões em “ação real” não são uma novidade na indústria cinematográfica, já que existem desde os anos 90. Entretanto, a partir de 2010, houve um aumento significativo nas adaptações desse formato, principalmente pela Disney, afinal, desde o início da década passada, a empresa produziu mais de 21 releituras de consagradas animações – e já está desenvolvendo outras.

A prova concreta da ascensão dos longas “realísticos” é o fato de outros estúdios estarem investindo nesse tipo de projeto, algo que estava “restrito” à Disney até 2025. A Dreamworks (maior concorrente da empresa), por exemplo, lançou seu primeiro filme em live action – Como Treinar o Seu Dragão – em 2025, e já anunciou a sequência para os próximos anos.

Como Treinar o Seu Dragão, live-action inspirado na animação, chega aos  cinemas - Rolling Stone Brasil
A Dreamworks lançou seu primeiro live action – Como Treinar Seu Dragão – em 2025, e já anunciou a sequência para os próximos anos/imagem: divulgação

Não são todos os diretores e cineastas que concordam com essa crescente de adaptações. Em recente entrevista à revista Time, o diretor da Pixar, Pete Docter, se mostrou contra a produção de versões realistas: “posso me prejudicar por dizer isso, mas meio que me incomoda”, disse Docter. “Gosto de fazer obras que são originais e únicas em si mesmas. Fazer refilmagens, para mim, não é muito interessante pessoalmente.”

Entretanto, os últimos dois projetos inéditos da Disney/Pixar – que iniciam possíveis novas franquias – Elementos (2022) e Elio (2025) ficaram abaixo do esperado em bilheteria; o último, inclusive, não passou dos US$200 milhões mundialmente, tornando-se um dos maiores fracassos da história do estúdio. Em contrapartida, Lilo & Stitch, a mais recente versão em live action da Disney, ultrapassou a marca de US$1 bilhão nas bilheterias globais.

O NeoCult entrevistou João Antunes, criador de conteúdo sobre cinema nas redes sociais, para comentar a falta de interesse do público em animações originais:

“Existe uma tendência de mercado em que as pessoas assistem um longa por mês no cinema. Então, eu acho que a pessoa filtra. ‘Vou ver esse título que não conheço nada e que eu posso ver depois no streaming, ou vou assistir Lilo & Stitch que marcou minha infância e eu posso levar meus filhos?’ Então, é isso, uma tendência de mercado diante de um cinema que está penando para trazer o público de volta. E eu acho que esse público não massivo vai voltar em ocasiões muito específicas, sabe. Então, creio que o live action se torna uma preferência acima de outros conteúdos”.

João Antunes em entrevista para o NeoCult/imagem: reprodução

Há um debate geral sobre como essas refilmagens são tratadas pelo senso comum: uma reafirmação de clássicos ou sinal de esgotamento criativo da indústria cinematográfica?

É necessário, sim, exaltar obras históricas, afinal, todas elas transmitem mensagens importantes para o amadurecimento de crianças e adolescentes diante das catástrofes que acontecem mundo afora. Porém, o excesso de releituras afeta negativamente a própria indústria; a carência de originalidade é notória, muitas vezes resultando em uma autossabotagem das empresas em relação a seus trabalhos inéditos, principalmente na área de marketing – mesmo que esta não seja a intenção.

O exemplo mais recente é o de Elio, lançado aproximadamente duas semanas após Lilo & Stitch (2025). Uma animação autoral que foi completamente ofuscada por uma reimaginação, além dos diversos problemas de desenvolvimento e divulgação que prejudicaram o desempenho do longa nos cinemas. João comentou sobre o assunto:

Elio teve alguns fatores que foram cruciais para não ter explodido. Um deles é que teve uma projeção teste – que eles sempre fazem com o público – onde perguntaram aos presentes se iriam ver a animação no cinema ou esperar sair no streaming. A maioria falou que esperaria no streaming, então, não podemos excluir o fator streaming nessa jogada. Houve também muita mudança no roteiro durante a produção, com isso, era uma animação e acabou se tornando outra… e, não sei você, mas eu ouvi falar de Elio uma semana antes do lançamento! Muitas pessoas conheceram o filme assim. Então, a Disney também tem esse poder de podar alguns projetos no marketing: ‘Ah, não vamos divulgar tanto e vamos criar esse estigma de que as pessoas não estão curtindo histórias originais e querem mais do mesmo.’”

Como citado por João, o último projeto da Disney/Pixar é o exemplo perfeito de impulsionar a companhia a investir ainda mais em remakes ao invés de novas tendências, afinal, podem utilizar a desculpa de que o público não está interessado em novidades. É, de certa forma, um grande desprezo pelo gênero que elevou a popularidade do estúdio ao que ele é hoje, já que há claramente uma espécie de má vontade em investir no marketing de novos universos.

Apresentar tradições animadas para a nova geração de crianças e adolescentes é um dos motivos da alta demanda de filmes em live action, entretanto, as histórias originais permanecem sendo a experiência definitiva desses universos, sem prazo de validade ou mensagens sociais, políticas e culturais datadas. Obras como: Wall-E, Fuga das Galinhas, Vida de Inseto e Shrek possuem diversos aspectos que são mais atuais do que eram em décadas passadas. Isso, obviamente, tem muito a ver com a baixa evolução social que tivemos desde o lançamento desses longas – em todos os sentidos – mas, sobretudo, deixa evidente que a justificativa de “nova visão” para as recentes gerações é um argumento vazio, servindo apenas como subterfúgio para explicar a quantidade de refilmagens lançadas nos últimos anos.

Você sabe qual é o filme da Disney com mais músicas?
Animações de décadas passadas possuem mensagens que reverberam até os dias de hoje/ imagem: divulgação

Há uma preocupação sobre como as adaptações realistas influenciam companhias de cinema independentes ou em ascensão, mas não só isso, também impactam a sétima arte em questões técnicas. Roteiro, por exemplo, é um dos atributos mais importantes pertencentes à estrutura de um longa e, claramente, readaptar enredos já existentes em abundância pode ser considerado um retrocesso técnico e criativo das produtoras, além de gerar uma possível falta de inspiração para criações independentes – principalmente quando se usa a falsa desculpa sobre a falta de interesse do público em histórias inéditas.

“Dá uma impressão de que Hollywood está encontrando dificuldades em elaborar boas ideias (criativamente). Talvez seja mais uma questão da Disney do que de outros estúdios, mas, existem vários cinemas, e existem outros mercados com outras propostas além da de fazer dinheiro”. Completou João Antunes.

A reafirmação de obras consagradas é importante até certo ponto. Novos panoramas de histórias são bem-vindos – quando bem feitos – mas, definitivamente, não deveriam ser uma tendência predominante.

As companhias parecem ter encontrado uma mina de diamante ao reexibir seus projetos renomados em uma perspectiva diferente e realista, porém, ao mesmo tempo, parecem não se importar muito com o motivo que as levou ao auge.