O criador Chris Pereira detalha a jornada de transformar a cultura brasileira em um universo de super-heróis e os desafios que enfrenta

Por Otavio Sampaio

O universo dos super-heróis, por décadas, vestiu as cores da bandeira americana, com Nova York como palco principal. Mas um novo motor criativo brasileiro está se formando e decidido a transformar esse cenário. Assim, a ideia do Projeto Força BR, de Cristiano Pereira, não é apenas uma série de Histórias em Quadrinhos (HQs), mas uma construção ambiciosa de um mundo de super-heróis verdadeiramente nacional e compartilhado, baseado no poder do folclore, cultura e identidade brasileira, e com o Brasil como a fonte de seu poder. 

Foto de capa Projeto Força BR /Reprodução/Arquivo Pessoal

Dentro do cenário editorial, dominado por titãs internacionais e repleto de obstáculos logísticos, o Projeto Força BR – um universo multimídia de quadrinhos, RPG e licenciamento – fez da excelência criativa e da qualidade do produto a espinha dorsal de seu modelo de negócios. Essa busca por um padrão profissional não é apenas um objetivo, mas a principal estratégia do projeto para lidar com os desafios do mercado, incluindo o preconceito e a invisibilidade dos produtos nacionais. No cerne dessa iniciativa está um propósito que vai além do entretenimento: criar um legado cultural para as futuras gerações, preenchendo o vazio de ícones brasileiros no gênero dos super-heróis e fomentando toda a cadeia de produção artística interna.

O projeto, que foi construído através de campanhas de financiamento coletivo bem-sucedidas, mostra que há um apetite do público por histórias que espelham o próprio país. No entanto, é uma jornada caracterizada por uma batalha constante contra os altos custos de produção, a intensificação da concorrência internacional e uma “barreira invisível” inesperada que impede a produção nacional de escalar para o mainstream.

Do caderno escolar à observação ativa: a base criativa do universo

Cristiano Pereira em entrevista para o NeoCult/Reprodução/Arquivo Pessoal

A principal inovação da Força BR é sua associação com a identidade cultural brasileira, mas ela se originou de algo muito mais pessoal. Em entrevista para o NeoCult o criador Chris Pereira revela que o desejo de criar começou na juventude, como um hobby comum entre amigos:

“Era comum a gente ter como hobby uma criação de nossos próprios personagens, nossos próprios universos. Uma brincadeira, né? Que a gente costumava fazer. A gente até desenhava um quadrinho em uma folha de sulfite, dobrava no meio e grampeava”.

O desconforto de ter apenas Nova York como palco para a ação transformou esses esboços em um projeto. Para elaborar a ideia e se baseando em jogos de RPG, Chris empregou seu próprio método incomum: quantificar as habilidades dos heróis. “Eu peguei esses personagens e coloquei eles dentro de um sistema de RPG para quantificá-los” , diz ele, observando as regras do jogo lhe permitiu entender do que cada herói era capaz para que pudesse abordar a escrita. 

A partir de disso, a inspiração tornou-se olhar diretamente para o Brasil. O criador relata que a base do processo é a capacidade de observar o cenário local e extrair dele o ponto de partida para a fantasia. Ele exemplifica esse processo com uma memória de viagem:

“Uma vez eu fui pro sul do Brasil, e eu visitei um lugar impressionante, que é o São Miguel das Missões. Quando estava lá minha imaginação explodia com ideias, sabe? Pensando como usar algo aqui, como poderia ser um cenário para tal coisa ou como ambientar outra ideia”

Estrutura de São Miguel das Missões (RS)/imagem: divulgação/Clube Candeias

Em busca de um ponto de realidade dentro de um mundo de fantasia, isso se refletiu em pesquisas detalhadas e referências em livros didáticos, mais notavelmente o Dicionário do Folclore Brasileiro de Luís da Câmara Cascudo. O resultado é um arquétipo de heróis que, combinados, refletem um pequeno microcosmo da própria nação, representando a composição cultural, racial e regional do país. É esse ideal de união que se traduz no projeto:

“Eu achei que o slogan do ‘Juntos Somos Fortes’, representa o que deveria ser o Brasil como um todo”, afirma o criador. 

É essa busca por legado que alimenta a Força BR. “Eu lamento quando eu olho pro meu próprio passado e percebo que nós não temos passado. Tirando, como exceção, o Maurício de Sousa que foi um divisor de águas nesse ponto, tirando isso, praticamente não tem mais nada”, desabafa Pereira sobre a importância de criar ícones nacionais.

O mercado e a dificuldade da concorrência desigual

Embora exista riqueza criativa, o Projeto Força BR e outros títulos nacionais independentes enfrentam um sistema hostil que impede a profissionalização e a exposição. Como Chris Pereira nos lembra: “Heróis somos nós que estamos aqui”.

O mercado de HQs no Brasil enfrenta desafios estruturais, como a dificuldade de distribuição fora dos grandes centros e a elitização dos produtos (Jornal da USP). Conforme apontado por estudos sobre o setor, o aumento no preço do papel e o formato de luxo de muitas edições elevam os custos, tornando a concorrência com a produção global, que chega em volume e preço menor, quase inviável (NeoFeed).

Mas, para o criador, a excelência é o único meio de sobreviver. Ele sabe que a concorrência exige melhor qualidade graças à desigualdade de recursos. 

“O preço da nossa mercadoria é mais alto. A nossa periodicidade é muito mais longa. […] Então, a única forma que eu pensei que nós poderíamos de fato concorrer seria através da qualidade”, revela Chris, explicando a opção de investir em artistas de ponta, muitos dos quais trabalham para o mercado internacional.

Essa busca por um padrão elevado, no entanto, é dificultada pelo que o criador descreve como o preconceito com o produto nacional: a síndrome de vira-lata.

A gente procura fazer um trabalho de qualidade ótima para ser avaliado como bom. Porque a régua para avaliar o mercado nacional está lá em cima. Sendo que a régua para avaliar o mercado de fora está aqui embaixo. Então a gente tem que fazer o ótimo para parecer bom”.

Curiosamente, o preconceito não é apenas financeiro ou logístico. Pereira revela que, ao tentar contratar profissionais para o primeiro volume, muitos se recusaram: “Muitos deles rejeitaram trabalhar no meu projeto, no primeiro momento, mesmo eu tendo o dinheiro para pagá-los. Por puro preconceito em julgar que um trabalho nacional seria uma coisa prejudicial para a imagem deles como artistas.”

O obstáculo final é a invisibilidade. O criador sente que há um bloqueio sistêmico, que ele diz ser quase como uma “barreira mística”, por parte de canais especializados e eventos, que não dão o devido holofote a quem produz no Brasil. O produto nacional, mesmo de qualidade, é frequentemente relegado ao underground.

A estratégia de expansão e a persistência 

Chris Pereira seguiu com seu modelo de licenciamento, espelhando o sucesso de Maurício de Sousa, para resolver a questão de depender exclusivamente de quadrinhos para sobrevivência do projeto.

“O segredo do sucesso é a expansão da marca, da propriedade intelectual de forma que ela possa ser licenciável. […] Os quadrinhos […] têm que continuar sendo produzidos e lançados, porque eles são o lastro da coisa. É como se fosse a nossa árvore, né, que dela saem todos os galhos”, descreve o criador sobre a visão de longo prazo.

Produtos derivados (ou seja, jogos de RPG, jogos de tabuleiro e uma realização de animação) são o que sustenta a longevidade da marca. A marca tem visto acordos de licenciamento surgindo diretamente dessa estratégia, mostrando que o mercado reconhece a oportunidade para a marca.

Além da estratégia de negócios, a interação com o público é crucial. Chris mantém uma relação de proximidade com a fanbase, buscando feedback constante e se mostrando flexível a sugestões, pois acredita que a obra deve ser, em parte, do mundo: “Chega um ponto que um personagem, uma criação sua é como se ela não fosse mais sua. Ela é das pessoas. Ela é do mundo”.

A mensagem final, para quem deseja empreender artisticamente no Brasil, é de persistência. O criador alerta que “As pessoas, não fracassam, elas desistem”. O Projeto Força BR é um testemunho de que, mesmo enfrentando barreiras estruturais, econômicas e ideológicas, a qualidade, a persistência e a paixão por contar histórias brasileiras podem, aos poucos, reescrever o futuro do gênero no país.