NeoCult avalia como se saiu a nova temporada do spin-off de The Boys
A segunda temporada de Gen V, spin-off de The Boys na Amazon Prime, encerrou seus 8 episódios confirmando um receio sobre a produção: a série, que se propôs a expandir o universo caótico da Vought para o ambiente universitário, se perdeu em inconsistências narrativas e em um excesso de tramas rapidamente desfeitas.
Apesar de apresentar um novo vilão astuto e desenvolver a dinâmica dos jovens Supers da Universidade Godolkin, a temporada falha em sustentar o peso do universo The Boys, diluindo a sensação de perigo e entregando um drama excessivamente “seguro” para seus protagonistas.
A inconsistência de tom e a suavização da violência são os pontos mais críticos. A trama move seus personagens em círculos, com encontros e cenas servindo mais como fanservice do que motores de uma história coesa.
(Alerta: O texto a seguir contém spoilers da primeira e segunda temporada).
A temporada começa com a ressonância do massacre final da temporada anterior, mas a sensação de trauma e aprisionamento em Elmira rapidamente se dissipa. Marie Moreau (Jaz Sinclair) escapa sozinha deixando seus colegas para trás, enquanto Emma Meyer (Lizze Broadway) e Jordan Li (London Thor/Derek Luh) são libertados, sendo recepcionados por Cate Dunlap (Maddie Phillips).
A morte de André Anderson (Chance Perdomo) em Elmira nós é revelada rapidamente, sendo associada ao abandono de Marie em sua fuga solitária, um evento trágico influenciado pelo infeliz incidente com o ator na vida real. Apesar disso, a raiva que Jordan tem de Marie pela morte de Andre, é rapidamente esquecida e perdoada.
A falha em estabelecer a tensão é evidente na representação do próprio ambiente de Elmira. Apesar dos personagens descreverem a prisão como um pesadelo de tortura física e psicológica, os retornos ao local ao longo da série, exceto pela cena da chegada de Cate, não conseguem transmitir o medo ou o perigo afirmado no roteiro. Elmira se torna apenas um local de encarceramento, não um centro de horror.
Outro ponto que gera questionamentos é a própria fuga de Marie. A temporada dedica tempo a transformá-la em fugitiva para, em seguida, colocá-la de volta em Godolkin para investigar o Projeto Odessa a pedido de Luz Estrela. A manobra cria uma sensação de desperdício de tempo narrativo, onde o roteiro dá voltas para atingir um ponto que poderia ter sido alcançado de maneira mais direta, dissolvendo a relevância da tensão inicial.

A Universidade Godolkin, agora sob a direção do misterioso Super conhecido como Cipher, introduz um tema social promissor: a segregação entre funcionários humanos e Supers. Embora a temática da opressão humana pelos Supers seja inerentemente interessante e se encaixe na crítica social de The Boys, a série toca no assunto de forma rápida e superficial, desperdiçando o potencial de um debate mais profundo.

A temporada é marcada pelo “vai e volta” narrativo. Arcos de personagem são criados e desfeitos em poucos episódios, minando o desenvolvimento e a seriedade das ações. Um exemplo notável é Jordan Li, que conquista a posição de Super Número 1 e trabalha para limpar sua imagem na mídia. No entanto, em um ato de culpa, Jordan se incrimina pelo ataque a Cate, voltando à vilanização do público e, na prática, apagando todo o trabalho de desenvolvimento de imagem feito no início da temporada.
As aparições de personagens da série principal, como Luz Estrela e, posteriormente, Stan Edgar e Zoe Neuman, funcionam como “fanservice”, reforçando a conexão de universos, mas raramente acrescentam elementos essenciais à trama principal. A ida do grupo a um bunker com Edgar, por exemplo, não se justifica, já que a informação crucial sobre o corpo de Thomas Godolkin poderia ter sido inserida de forma mais orgânica.
O clímax da temporada foca no Projeto Odessa e na descoberta do verdadeiro vilão, Thomas Godolkin, usando Cipher como marionete para concretizar seus planos de separar “Supers fortes de Supers fracos”. Godolkin, agora com seu corpo original, demonstra um poder de controle mental superior ao de quando usava Cipher, mas também se enquadra na falha estrutural da série.
A ameaça de Godolkin, não parece ser um perigo real. O grupo, agora mais forte, poderia ter resolvido a situação de forma mais rápida, mas é retido pelo roteiro. Um exemplo disso é quando Godolkin se passando por Cipher envia o Vikor atrás do grupo, Vikor é um super resistente, Marie havia tentando enfrentá-lo anteriormente porém ainda não era forte o suficiente, porém no segundo embate contra o brutamontes, Marie já havia passado pelo treinamento e melhorado suas habilidades, Vikor não deveria ser um problema tão grande para o grupo. O nível de poder parece flutuante, se adequando ao que o roteiro precisa naquele momento.
A construção de Cate e Sam como figuras vilanescas cai por terra quando o roteiro tenta forçar uma rápida redenção, transformando-os em mocinhos com a justificativa de “não sabiam o que faziam,” enfraquecendo a complexidade moral tão valorizada em The Boys
A série finaliza com o grupo fugindo após matar Godolkin com a ajuda de Polaridade e se juntando a Luz Estrela e Trem Bala na resistência.
O softcore da violência, a falta de peso nas decisões e o protagonismo excessivo, garante uma certa “proteção invisível” ao grupo, vão contra a essência de incerteza e medo constante tão característico na franquia.
Em resumo, a segunda temporada de Gen V falhou em aprofundar os temas propostos a discutir, pecando por um roteiro que se move em círculos e dilui o impacto de suas próprias ações. A série demonstra uma dificuldade em se posicionar no universo Vought, resultando em uma temporada com mais pontos baixos do que altos, deixando a responsabilidade de resgate para a próxima temporada de The Boys.

