Relembrando uma das maiores febres literárias do século passado!

Por Davi Landim

A literatura nacional conta com vastas opções de livros que mergulham na fantasia, mistério e na inocência infantojuvenil que tanto molda a personalidade de diversos jovens no país. Entretanto, a coleção que mais se destaca envolvendo esses temas é a Vaga-Lume, um marco na adolescência de milhões de brasileiros.

Apesar de sua primeira publicação (A Ilha Perdida) ter sido lançada em 1973, o projeto viveu seu auge no início dos anos 80, quando a Ática – editora responsável pela coleção – passou a contratar escritores para enriquecer o catálogo com títulos inéditos que exploravam diversos gêneros literários. Assim, as narrativas se tornaram mais variadas: ora apostando no suspense em O Mistério dos Cinco Estrelas, de Marcos Rey, ora viajando pela magia medieval de As Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida.

O projeto viveu seu auge no início dos anos 80/reprodução/Imagens: Capas de Livros Brasil

Com essa diversificação, a Ática conquistou milhões de leitores brasileiros para as fascinantes aventuras da Vaga-Lume, tornando-a uma das maiores tendências literárias da década de 80. Segundo dados divulgados pela BBC News Brasil em 2023, O Mistério dos Cinco Estrelas, por exemplo, vendeu 200 mil exemplares apenas nos primeiros 15 dias de lançamento, esgotando completamente a tiragem inicial.

É fato que as obras da coleção marcaram gerações X e Millennium, mas será que esse impacto permanece entre os jovens da geração Z e alpha? Em entrevista para o NeoCult, Ana Paula Laux, jornalista e criadora do canal Literatura Policial, comentou se o “efeito Vaga-Lume” ainda reverbera:

“Infelizmente, acredito que não. A coleção Vaga-Lume foi fundamental para despertar o gosto pela leitura em gerações anteriores, mas acho que os jovens de hoje não conhecem muito esses livros nem percebem a importância que eles tiveram na formação dos leitores no Brasil. O efeito que a coleção teve no passado foi se diluindo diante de tantas outras opções de entretenimento e também da ausência de uma presença mais forte nas escolas atuais.”

Ana Paula Laux concedeu entrevista para o NeoCult/reprodução/imagem: arquivo pessoal

A era da internet, que acompanhou crianças e adolescentes da geração Z, acabou ofuscando o brilhantismo do conjunto de livros que tanto influenciou leitores em décadas passadas. Somado a isso, o hiato de 12 anos sem novas edições (2008-2020) contribuiu para que a série se retraísse ainda mais no cenário literário nacional. Com isso, muitas pessoas sequer sabem que a publicação não foi descontinuada e ainda lança novidades, mesmo que o último título – Os Marcianos, de Luiz Antonio Aguiar – tenha chegado às livrarias em 2021.

Os marcianos | Luiz Antonio Aguiar | Capa |
Os Marcianos, de Luiz Antonio Aguiar/imagem: Capas de Livros Brasil

Diversos best-sellers mundiais, como Harry Potter, Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia, migraram do papel para as telas. Até agora, a Vaga-Lume rendeu poucas adaptações para o cinema e a TV. O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida, ganhou uma versão cinematográfica em 2016, sob a direção de Carlo Milani; Éramos Seis, de Maria José Dupré, recebeu mais de cinco produções audiovisuais, sendo a mais recente em 2019, pela TV Globo. Essas incursões para cinema e televisão podem despertar o interesse de novas gerações em descobrir os universos criados pela coleção, recolocando-a nos holofotes. Sobre a possibilidade de mais investimentos em adaptações, Ana destacou:

“Acho que adaptações com qualidade para o cinema e TV/streamings poderiam resgatar a relevância da Vagalume, poderiam apresentar estes clássicos para novas gerações e também despertar a nostalgia dos leitores que cresceram lendo os livros.”

O Escaravelho do Diabo - Filme 2016 - AdoroCinema
O Escaravelho do Diabo é a única adaptação da Vaga-Lume para os cinemas/imagem: reprodução

Embora a popularidade tenha diminuído – especialmente após os anos 2000 – é sempre importante ressaltar o legado que esse acervo deixou para a literatura nacional. Por ter sido uma forte tendência nas décadas de 80 e 90, muitos jovens da época iniciaram suas aventuras literárias por meio da Vaga-Lume, que continua sendo um excelente ponto de partida para quem está dando os primeiros passos através da leitura, afinal, o declínio da fama não significa perda de relevância. Ana Laux comentou sobre a marca e a acessibilidade deixadas pela série que tanto encantou os brasileiros:

“O maior legado da coleção Vaga-Lume foi, com certeza, formar gerações de leitores. Ela era viciante! Foi através da Vaga-Lume que vários jovens tiveram acesso a livros de mistério e aventura e desenvolveram o hábito da leitura. Eu diria que ela ajudou a democratizar a leitura no Brasil, que mostrou que a literatura pode ser divertida e ajudou a criar um elo afetivo com os livros que creio durar até hoje.”

As edições da Vaga-Lume continuam disponíveis em diversos sites, livrarias e sebos espalhados pelo Brasil. Ainda que sejam publicações antigas, carregam mensagens e tramas que permanecem atuais, mesmo após mais de 50 anos de existência.

“Eu começaria (a leitura) pelos clássicos do Marcos Rey, porque ele foi o nome mais marcante da coleção: O Mistério do Cinco Estrelas, Um Cadáver Ouve Rádio, Enigma na Televisão, este meu primeiro da Vaga-Lume. Guardo um carinho imenso por este livro! Vale também destacar O Escaravelho do Diabo, da Lucia Machado de Almeida, A Ilha Perdida, de Maria José Dupré, Deus me Livre, de Luiz Puntel. São tantos títulos memoráveis! Leiam a coleção inteira, é a melhor dica que eu posso dar.” completou Ana.